Aprendizagem ativa: conceito e princípios

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Quando temas como ensino, relação professor-aluno e aprendizado em classe aparecem como tópicos de conversa, o que vem à sua mente?

Apostamos que, de imediato, você vai imaginar aquele modelo de sala de aula em que o docente está escrevendo na lousa enquanto fala e os estudantes assistem, passivos, tomando nota – isso, quando estão prestando atenção no que está sendo exposto.

Não é de se estranhar que esse cenário passe pelas nossas cabeças. Ele aparece regularmente em filmes e séries que têm personagens em idade escolar.

Além disso, se você fez o Ensino Básico na década de 1990 ou nos anos 2000, as chances de ter passado por essa experiência são grandes, uma vez que aulas expositivas dominavam as metodologias de ensino na época.

Contudo, há alguns anos esse modelo tem sido questionado por especialistas em Educação. Afinal, se pararmos para pensar, a cena descrita acima reforça um tipo de aprendizagem passiva, em que a relação dos professores com os alunos é totalmente verticalizada – ou seja, acaba não havendo espaço para o diálogo e para a troca de experiência em sala.

É por essa razão que a aprendizagem ativa ganhou espaço, sobretudo em meados da primeira década do século 21, e tem servido de inspiração para outros movimentos.

1 → O que é aprendizagem ativa

Como dissemos acima, o questionamento do modelo tradicional de ensino – que favorece sobretudo as aulas expositivas –, fez com que especialistas, pesquisadores e profissionais da Educação buscassem outras possibilidades de aproveitar o tempo em sala de aula.

Com isso, a aprendizagem ativa surgiu no deslocamento da perspectiva de um ensino passivo para um ensino que engaje os estudantes de forma mais prática.

Assim, podemos defini-la como um conjunto de metodologias que têm o estudante no centro. O foco da aprendizagem ativa é como os estudantes aprendem, não simplesmente o que eles aprendem.

Um importante antecedente teórico da aprendizagem ativa é o construtivismo, que tem como grande expoente o suíço Jean Piaget, pesquisador com formação em Psicologia, Biologia e Pedagogia.

A principal premissa do construtivismo é: ao refletirmos sobre nossas próprias experiências, conseguimos construir um entendimento sobre o ambiente que nos cerca e sobre o mundo em que vivemos.

Assim, também construímos modelos mentais para interpretar essas experiências, e à medida em que temos novas experiências, esses modelos mentais vão se reajustando para incluir mais informação a partir dessas vivências. Ou seja, a interação com o ambiente e com pessoas não só é incentivada no construtivismo como também é considerada como fator essencial do processo de desenvolvimento educacional.

Tendo tudo isso em mente, é válido ressaltar: a aprendizagem ativa tem alguns princípios que a norteiam. Vamos explorar um pouco mais sobre eles a seguir.

2 → Quais são os princípios da aprendizagem ativa

Você já sabe que a aprendizagem ativa busca sair do modelo engessado de aulas exclusivamente expositivas e coloca o aluno no centro, não é? Mas o que, exatamente, significa “colocar o aluno no centro”? E quais são os outros princípios?

O aluno é o protagonista

Esse é o princípio base da aprendizagem ativa, e é a chave do sucesso da implementação desse modelo de ensino nas instituições escolares. O aluno é o protagonista em seu processo de aprendizagem, e o professor deve guiá-lo de uma maneira muito mais horizontal durante as aulas.

Ao colocar o estudante “na frente e ao centro”, a ideia é estimulá-lo a realmente entender o conteúdo abordado, além de exercitar habilidades socioemocionais cruciais para o pleno desenvolvimento enquanto indivíduo numa sociedade cada vez mais exigente, onde as informações circulam com extrema rapidez.

Ênfase no pensamento crítico

Dentre as habilidades socioemocionais trabalhadas pelo emprego da aprendizagem ativa, destacamos o pensamento crítico. Os alunos são encorajados a pensar de forma crítica e atenta, ao invés de apenas receberem informação de forma automática e – como já dito – passiva dos professores.

Ao refletirem sobre o que estão aprendendo, os alunos podem ter dúvidas sobre a aplicabilidade de algum conceito específico. É por isso mesmo que tudo se relaciona: quando bem executado, o fomento da criticidade em sala de aula tende a tornar a relação professor-aluno mais horizontal. Tendo isso em mente, vamos passar para o próximo princípio.

O aprendizado deve ter um contexto significativo

Já deu para perceber que os princípios que estamos mencionando são fortemente interligados, não é mesmo? Imagine algo como um processo contínuo envolvendo etapas que, às vezes, podem ser lineares e, às vezes, podem se mesclar entre si:

  • O aluno é estimulado a ser o protagonista de sua aprendizagem;
  • Com isso, o desenvolvimento do pensamento crítico também é fomentado, fazendo com que o estudante reflita sobre o conteúdo que está recebendo;
  • A partir dessa dinâmica, o engajamento tende a aumentar, e com isso, o aluno busca relacionar o conteúdo sendo trabalhado com o que está à sua volta.

É aí que entra o significado. Proposto de forma pioneira pelo célebre filósofo social, teórico político e escritor suíço Jean Jacques Rousseau, tal preceito propõe a aprendizagem otimizada quando enxergamos uma utilidade para o que está sendo ensinado, e conectamos o conteúdo com acontecimentos ao redor do mundo.

Por exemplo: imagine um aluno no Ensino Fundamental aprendendo conceitos básicos de Astronomia. Se o professor procura saber o que está “acontecendo” na semana em que vai ensinar tal conteúdo – seja um eclipse, ou uma constelação brilhante que aparece em determinada estação do ano -, ele pode convidar os alunos a olharem para o céu noturno com o auxílio dos pais, o[MD1] u provocar os estudantes com perguntas propositivas, instigando a curiosidade e levando-os à reflexão! Essa é uma ótima maneira de fazê-los construir conhecimentos.

O planejamento é essencial para a execução

Falamos bastante sobre o aluno no centro e algumas das etapas cognitivas da aprendizagem ativa (protagonismo → pensamento crítico → conteúdo com significado). Mas e o professor?

Além de uma maior horizontalidade na sala de aula – o que não deve significar anulação da hierarquia, afinal o professor ainda é uma autoridade –, a aprendizagem ativa estimula que o professor seja o guia dos alunos. Para isso, o planejamento torna-se essencial.

Uma armadilha pode ser elaborar a atividade a ser desenvolvida antes de se focar no objetivo do aprendizado. Afinal, uma atividade pode ser extremamente simples, mas se conseguir cumprir o objetivo de colocar o aluno ao centro e fazê-lo refletir sobre o aprendizado, ela ainda vai fazer com que ele pense de forma crítica.

Por isso, o professor deve considerar três estágios de planejamento:

1. Pesquisa: o professor assume sua faceta de pesquisador, procurando ativamente por recursos online sobre a aprendizagem ativa – como este texto que você está lendo agora!

2. Observação: essa é mais uma fase de aprendizagem para o próprio professor, em que ele é estimulado a observar como outros docentes executam as metodologias ativas. Tal prática faz com que ele se questione: o que faz disso uma prática de aprendizagem ativa?

3. Testagem e autoavaliação: sempre com o apoio dos gestores escolares, o professor pode propor uma atividade usando metodologias ativas e depois fazer uma autoavaliação, perguntando-se o que deu certo, o que pode dar errado e quais ajustes podem ser feitos.

Agora que falamos sobre a parte mais teórica, vamos para a prática?

3 → Como aplicar o método ativo na educação

Antes de nos aprofundarmos neste tópico, é válido lembrar que a aprendizagem ativa diz respeito a um conjunto de metodologias, ou seja, há várias possibilidades de trabalhar o método ativo em sala de aula. Listamos abaixo algumas das principais:

Sala de aula invertida

A sala de aula invertida – ou flipped classroom, no termo original em inglês – é uma dinâmica que ressalta a importância da tecnologia na educação. Essa dinâmica propõe utilizar recursos online para promover o primeiro contato do aluno com determinado conteúdo para que depois o tema seja discutido em sala de aula.

Dessa forma, o professor pode gravar uma videoaula ou fazer uma apresentação interativa online para introduzir um assunto para os estudantes. Esse recurso foi particularmente utilizado no contexto do ensino remoto durante a pandemia justamente para otimizar o momento das aulas ao vivo.

Debates em classe

Promover debates em sala de aula pode parecer algo simples; afinal, esse recurso já tem sido utilizado pelos educadores há tempos. Contudo, ao considerarmos o conceito e os princípios da aprendizagem ativa, o debate ganha um outro prisma.

Tendo em vista que os alunos são protagonistas no processo de aprendizado, as noções binárias de debate – que incentivavam que um lado da classe deveria debater o outro a partir de perspectivas antagonistas para, ao final, uma dessas perspectivas ser coroada a “certa” – dão lugar para um outro formato que prioriza o pensamento crítico.

Um determinado assunto, ou uma notícia em particular, pode ter várias nuances. Cabe ao professor estimular os alunos a refletirem sobre essas nuances, guiando-os em um primeiro momento por meio de perguntas disparadoras como:

  • “Por que determinado acontecimento ocorreu?”
  • “Quais foram os efeitos, tanto positivos quanto negativos, desse acontecimento?”
  • “Como esse acontecimento se relaciona com o que estamos aprendendo em nossa disciplina?”

Lembre-se que essas perguntas são exemplos que podem ser adaptados de acordo com a realidade de cada classe. Aqui, o importante é suscitar o engajamento e a reflexão para o aluno estabelecer conexões entre o que está sendo debatido e o programa curricular correspondente.

PBL (Problem-based learning)

O Problem-based learning (PBL) pode ser traduzido como o aprendizado baseado na resolução de problemas. Aqui, a ideia é apresentar um desafio aos alunos, que podem trabalhar em equipes ou individualmente – dependendo do planejamento do professor – para chegar a uma solução.

O mais legal do PBL é que ele pode se aplicar a qualquer disciplina e ter níveis de complexidade variados. O docente pode propor um problema a ser resolvido por meio da leitura de bibliografia prévia, assim o aluno consegue relacionar o conteúdo com o desafio em questão; ou então, numa perspectiva de mão na massa, altamente relacionada com a cultura maker (que será abordada logo mais), o professor pode sugerir um problema a ser resolvido com a fabricação de algo novo.

4 → Aprendizagem ativa ou colaborativa

A aprendizagem ativa também se utiliza de uma metodologia conhecida como Peer instruction, ou instrução por pares. Desenvolvida na década de 1990 por Eric Mazur, professor de Harvard, a metodologia Peer instruction reforça o princípio central da aprendizagem ativa, que é o aluno como protagonista de seu processo de ensino.

A diferença é que, na Peer instruction, colegas de classe colaboram entre si durante as aulas. Conforme Mazur delineou em seu trabalho, esse método consiste no seguinte:

  • O professor apresenta um determinado tópico ou conceito e depois coloca uma pergunta aos alunos sobre o que foi falado;
  • Cada aluno, individualmente, pensa sobre a pergunta e formula uma resposta;
  • Os alunos expõem suas soluções ao professor;
  • Os alunos conversam entre si sobre suas respostas, o que permite com que conheçam os pontos de vista de seus colegas e expandam seu entendimento sobre o que foi colocado;
  • O professor, então, guia a discussão final conforme o objetivo delineado previamente na etapa de planejamento.

Perceba: todo esse processo é feito em colaboração; dessa forma, a aprendizagem ativa tem um elemento intrinsecamente colaborativo ao estimular que os estudantes exponham seus argumentos e ouçam uns aos outros. Ao discutir, escutar e refletir sobre o conteúdo, há uma maior retenção do aprendizado, uma vez que o aluno deixa de ser um agente passivo no percurso educacional.

Já deu para compreender que a aprendizagem ativa auxilia no desenvolvimento de muitas habilidades socioemocionais, não é mesmo? Listamos abaixo algumas delas:

  • Confiança;
  • Autonomia;
  • Diálogo;
  • Resolução de conflitos;
  • Capacidade de escuta;
  • Trabalho em equipe.
  • Além, é claro, dos dois pilares do método ativo: o pensamento crítico e o protagonismo.

5 → Aprendizagem ativa, cultura maker e educação 5.0, similaridades e diferenças

Nós já falamos antes sobre a educação 5.0 e a educação maker. Para fazer uma rápida recapitulação, a educação 5.0 está alicerçada no ideal de Sociedade 5.0 ou Sociedade Super Inteligente e foi proposta por especialistas japoneses há menos de cinco anos – ou seja, é uma proposta bem recente.

A sociedade 5.0 tem a inovação como centro e seu desdobramento na educação é a união das habilidades técnicas, as hard skills, com as habilidades socioemocionais, mais intangíveis, as soft skills, para preparar a criança e o adolescente para atuar no mundo do futuro.

A educação maker, por sua vez, vem da cultura maker, movimento que surgiu em meados dos anos 2000 nos Estados Unidos e, desde então, se espalhou pelo mundo.

A cultura maker tem como objetivo resgatar o ímpeto fazedor do ser humano, numa abordagem bem “mão na massa”, e é aplicada na educação com uma série de atividades que vão estimular justamente isso – seja por meio de aulas de robótica ou atividades que envolvem reciclagem e materiais de educação artística.

A aprendizagem ativa se aproxima da educação 5.0 e da educação maker sobretudo no seguinte aspecto: no protagonismo do aluno em seu processo de aprendizado.

O professor é o mediador – e não apenas um mero expositor de conceitos – e deve guiar sua turma levando em conta não só as competências técnicas e o programa de disciplina como também o estímulo das soft skills.

Contudo, há algumas diferenças conceituais importantes entre as três:

  • A aprendizagem ativa é um conjunto de metodologias para promover o pensamento crítico do aluno, colocá-lo no centro e fazê-lo refletir sobre o aprendizado, para que possa reter melhor o conteúdo e empregar posteriormente o que foi aprendido.
  • A educação maker está inserida num movimento maior, o da cultura maker. Sua aplicação na sala de aula é um pouco mais recente, e privilegia o “do it yourself”, o aprender fazendo. Aqui, o pensamento crítico é um dos benefícios trabalhados e não um dos princípios fundamentais, ao contrário da aprendizagem ativa.
  • Já a educação 5.0 compõe um ideal de sociedade a ser alcançado. A educação maker e a aprendizagem ativa podem ser empregadas na educação 5.0, já que esta abre espaço para as hard skills e as soft skills e visa o desenvolvimento humano de forma integral.

Conforme olhamos para o futuro, podemos perceber a demanda urgente por uma educação humanizada, valorizando habilidades socioemocionais, e conectada com os avanços tecnológicos – afinal, os nativos digitais já são a maioria dos alunos no Ensino Básico.

6 → Porque e onde buscar capacitação

A aprendizagem ativa proporciona muitos benefícios para o desenvolvimento do aluno, já que promove a aplicação prática do conhecimento. Com isso, o estudante trabalha a capacidade de análise e síntese e engaja-se de forma mais profunda com o conteúdo trabalhado, o que faz com que ele seja capaz de reter e utilizar o conhecimento recebido.

Além disso, se pensarmos no contexto da nova Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, o conjunto de metodologias que compõem a aprendizagem ativa está em consonância com as competências gerais listadas pela prática. Como mencionamos lá no comecinho desse texto, aquele modelo engessado de aulas exclusivamente expositivas não contempla mais o contexto atual em que vivemos.

A tecnologia e as telecomunicações possibilitam um acesso muito rápido a informações e a notícias que acontecem ao redor do globo. A demanda por uma pessoa antenada, que saiba interpretar tais informações e que consiga empregá-las em seu dia a dia é crescente; por isso, o papel da escola é preparar seus alunos para o futuro.

Uma vez que a aprendizagem ativa é uma abordagem que valoriza o pensamento crítico do estudante e dialoga com o projeto de educação da BNCC, cabe às instituições escolares e ao corpo docente colocá-la em prática de uma forma que faça sentido para a realidade dos alunos.

Afinal, uma aula mais dinâmica motiva não só os estudantes como o próprio professor! O professor, aliás, pode se preparar para aplicar a aprendizagem ativa observando outros professores e pesquisando na internet, como já falamos antes, mas também pode se valer de algumas plataformas online para refinar ainda mais seu conhecimento.

O Google for Education, por exemplo, tem uma série de treinamentos que dialogam com a aprendizagem ativa, como a Ferramenta de Criação de Realidade Virtual e o Criador de Tours Virtuais – ambas podem ser experiências imersivas muito interessantes!

Já o Microsoft Education Center tem diversos programas e planos de lições. Destacamos aqui a plataforma de treinamentos, que inclui cursos como o “Minecraft Aplicado na Sala de Aula: Preparação para Aula” e o “Formando Cidadãos Globais”. Indicamos que os professores passem algumas horas explorando o Microsoft Education Center para selecionar os recursos que mais têm a ver com o contexto de seus estudantes.

Com isso, encerramos nosso conteúdo sobre aprendizagem ativa. Esperamos que você tenha gostado de conhecer esse conceito e todas as possibilidades que ele pode trazer para o pleno desenvolvimento dos alunos ao longo do Ensino Básico.

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