O que é cultura maker e como aplicá-la na educação

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O “Faça Você Mesmo” (do termo em inglês “Do It Yourself”, DIY) não é um conceito novo, já que suas origens remetem ao movimento punk da década de 1970.

A ideia de consertar objetos ao invés de comprar itens novos – ou até de dar uma outra cara a peças de roupas, por exemplo –, buscava propor maneiras diferentes de lidar com o consumo, de dar vazão à criatividade das pessoas e de incentivar a autonomia nesses processos de criação.

Agora vamos pular algumas décadas, indo dos anos 70 para o início dos anos 2000. Dale Dougherty, empreendedor e visionário estadunidense, fundou em 2005 a Revista MAKE  (MAKE Magazine ou MAKE Zine, no nome original), uma publicação com editoria altamente focada na mentalidade DIY.

Só que o mundo já não era mais o mesmo em que os punks viviam: com o surgimento da internet, as distâncias se encurtaram, as telecomunicações estavam muito mais ágeis e a tecnologia passou a fazer cada vez mais parte do cotidiano das pessoas.

A equipe por trás da Revista MAKE, então, foi a pioneira em propor a união da filosofia DIY com as ferramentas e possibilidades que esse novo mundo tecnológico apresenta. Assim, outro conceito começou a ser difundido: a cultura maker.

Nesse momento você deve estar se perguntando “mas… o que é cultura maker?”, certo? Continue lendo, porque preparamos um conteúdo super completo sobre este tema e o que ele tem a ver com a educação!

1 → O que é cultura maker

Já falamos um pouco sobre como a cultura maker é um desenvolvimento do princípio do DIY, o faça você mesmo. Para começar a desvendar o conceito, vamos nos ater à palavra que é chave aqui: maker, que vem do verbo em inglês “to make”, ou fazer.

A pessoa maker, portanto, é a pessoa que faz, que cria, que coloca a mão na massa. Nesse raciocínio, a cultura maker é um movimento que chega para incentivar esse propósito e para dar as bases para que indivíduos de todas as faixas etárias sejam makers.

Dougherty, o criador da Revista MAKE, também é considerado por muitos como o pai da cultura maker. Em um TED Talk, realizado no início de 2011 com o sugestivo título “Nós somos criadores”, ele defende que todos têm a capacidade de serem criadores, “fazedores”, makers.

Sobretudo, o empreendedor propõe um resgate do ímpeto criador, algo presente nos EUA no período após a Segunda Guerra Mundial. Por esta lógica, o TED relaciona a criação e o fazer com o brincar, com o ato de descobrir coisas novas em grupo, compartilhando experiências.

Os quatro pilares da cultura maker

Partindo dessa contextualização, vamos apresentar agora os quatro pilares principais que orientam a cultura maker:

  1. Criatividade: não é exagero dizer que sem criatividade não há a cultura maker. Uma das coisas que orienta o processo de fazer, o processo maker, é a necessidade de encontrar novas soluções para situações cotidianas; sem a criatividade, sem pensar fora da caixa, não há como modificar, inventar ou transformar contextos.
  1. Colaboração: outro grande pilar é a colaboração. Diferentes pessoas enxergam problemas diferentes de formas diferentes! Sim, pode parecer repetitivo, mas estamos dando ênfase na palavra para destacar que diferente, aqui, significa diverso. Perspectivas diversas se complementam, e um projeto maker só tem a ganhar com o trabalho em equipe, com o intercâmbio de ideias e a troca de conhecimentos. Os participantes devem apresentar uma visão inovadora e empática, sempre em favor do projeto, sabendo argumentar com habilidade e mostrando uma postura de pesquisador e colaborador.
  1. Escalabilidade: relacionada ao pilar da criatividade, a escalabilidade pode ser tanto a origem quanto parte fundamental de um processo maker, pois ao elaborar etapas para o desenvolvimento do projeto, o participante cria resoluções passíveis de serem produzidas em escala e com um custo acessível. Uma pessoa coloca a mão na massa para projetar algo que vá facilitar seu cotidiano, por exemplo. Durante a criação, ela pode se deparar com alguns problemas na execução – talvez uma etapa não tenha funcionado como esperado. A partir desse desafio, a pessoa é instigada a retomar o passo a passo e não desistir e exercitar sua capacidade de resolver o problema, seguindo adiante com seu projeto.
  1. Sustentabilidade: Esse pilar remete em grande parte à filosofia DIY, de reaproveitar, reconstruir, reparar e remendar. Aqui, é imprescindível considerar os impactos socioambientais na prática maker, evitando ao máximo o desperdício, ressignificando usos e funções de materiais quando possível – um exemplo é dar novo propósito às sobras de um projeto maker, utilizando essas sobras em um projeto diferente. Outro ponto relacionado ao pilar é a orientação do “menos é mais”, e isso também pode ser extremamente desafiador para os makers. Como fazer um produto utilizando menos materiais? Essa pergunta, aliás, também representa a possibilidade de exercitar os outros pilares.

Agora que você já sabe o que é a cultura maker, siga adiante para descobrir como ela pode ser aplicada nos processos educacionais!

2 → Como o conceito se aplica na educação

O surgimento da revista MAKE em 2005 deu início à ascensão da cultura maker: pouco menos de uma década depois, a cultura maker já contava não só com uma verdadeira comunidade ao redor do mundo, mas também com um acúmulo de práticas e experiências. Com isso, surgiu uma inquietação: por que não aplicar a filosofia maker na sala de aula? Assim, surgiu a proposta da educação maker.

Para entender melhor essa união entre a cultura maker e a educação, vamos voltar um pouco e mencionar brevemente dois métodos educacionais que são grandes inspirações para o movimento maker:

  1. O construtivismo: desenvolvido pelo epistemólogo e psicólogo suíço Jean Piaget na década de 1920, o construtivismo considera que há uma construção de conhecimento por meio de uma interação constante da criança com o mundo que a cerca. No construtivismo, o aluno é o protagonista de seu conhecimento e produtor de cultura; já o professor é um importante mediador do processo de ensino-aprendizagem. A teoria construtivista de Piaget defende o aluno como sujeito ativo desse processo. A investigação constante do ambiente e a interação com objetos são fortemente incentivadas pelo construtivismo.
  1. Construcionismo: proposto pelo educador e matemático Seymour Papert, o construcionismo tem como princípio estimular a aprendizagem pelo incentivo de ações concretas que geram um produto – seja esse produto um objeto, um texto, uma pintura ou uma apresentação no computador. Assim, os próprios alunos constroem as bases para se desenvolverem intelectualmente.

Pegando particularidades tanto do construtivismo quanto do construcionismo, a educação maker utiliza os pilares da cultura maker nas salas de aula para incentivar os alunos a aprenderem fazendo (em inglês, “learning by doing”).

Aplicabilidade

Um dos aspectos mais interessantes da educação maker é que ela pode ser aplicada em todas as séries escolares a partir de adaptações feitas de acordo com a faixa etária dos alunos.

Aliás, falando nisso, podemos pensar num ponto interessante: tanto no jardim de infância quanto na pré-escola, as crianças são incentivadas a terem experiências mais manuais, já que colocar a mão na massa ajuda no processo de aprendizado.

Contudo, conforme as crianças vão ficando mais velhas e progridem no sistema educacional, as escolas tendem a abandonar esse modelo: a aprendizagem fica menos prática e o currículo é direcionado para livros e seminários expositivos.

A educação maker é uma oportunidade de resgatar essas atividades práticas de modo a estimular os alunos por meio de projetos desafiadores que, na maioria das vezes, contam com a tecnologia como aliada.

3 → A importância de mesclar tecnologia e a cultura maker

Na cultura maker, a tecnologia é considerada como um meio para um fim. Esse é um princípio muito importante, já que deixa claro que aparelhos tecnológicos não são os atores principais, mas coadjuvantes no processo maker.

Ou seja, a tecnologia é uma grande aliada que pode:

1) desenvolver a capacidade criadora;

2) facilitar a comunicação entre as pessoas envolvidas na execução de um projeto, entre outros aspectos.

Além disso, é válido lembrar que a cultura maker começa em 2005; ou seja, não há como não considerar a tecnologia no movimento maker. Isso faz muito sentido se pensarmos em alguns fatores:

  • Atualmente, estamos passando pela Quarta Revolução Industrial, caracterizada pela aceleração dos avanços tecnológicos;
  • Com isso, surge a proposta da Sociedade 5.0, ou Sociedade Super Inteligente, que busca unir esses avanços com o desenvolvimento humano e que se ramifica na educação 5.0;
  • A educação 5.0, por sua vez, é focada no fomento de habilidades socioemocionais aliado ao domínio das habilidades mais técnicas.

Nesse contexto, a cultura maker utiliza impressoras 3D, máquinas de corte a laser, kits de robótica, smartphones e Arduino (que é uma placa eletrônica que inclui hardware e software e é definida por Dale Dougherty como “o cérebro de muitos projetos”) nos processos de criação.

Reforçando: o movimento maker é favorecido pela tecnologia e pelos avanços tecnológicos, que vão, por sua vez, possibilitar mais ferramentas e mais opções na execução de projetos. Mas são as pessoas – os makers – que escolhem como e quando utilizar essas tecnologias.

Na educação maker, o raciocínio é o mesmo: devemos considerar a importância da tecnologia na educação e enxergá-la como um suporte para os professores-mediadores durante as aulas.

4 → Benefícios de um ensino orientado à cultura maker

Como dissemos anteriormente, a cultura maker resgata o “aprender fazendo” na educação, pensando, assim, em outras possibilidades e formas de trabalhar o conteúdo visto em sala de aula.

Agora, vamos considerar algumas das competências pautadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

  • exercitar a curiosidade;
  • recorrer à imaginação e à criatividade;
  • utilizar diferentes linguagens para se comunicar;
  • compreender tecnologias digitais;
  • formular e defender ideias.

Todas essas competências visam desenvolver as habilidades socioemocionais dos alunos – as famosas soft skills, que não podem ser mensuradas por meio de certificados e provas e que dizem respeito muito mais à forma como a pessoa se relaciona com o mundo à sua volta.

A cultura maker, com seus pilares, é uma grande aliada do fomento das soft skills em alunos de todas as idades. É claro que habilidades técnicas e manuais são importantes nos projetos maker, mas as aptidões socioemocionais também são essenciais.

Algumas das aptidões que a cultura maker exercita são:

5 → Como definir espaços maker na escola

O espaço maker é onde todo o processo de criação acontece, onde o aprender fazendo ganha vida e os alunos viram os “fazedores”. Toda sala de aula tem potencial para ser um espaço maker.

Em primeiro lugar, é indicado que os gestores escolares e o corpo docente designem espaços maker na escola – as salas que serão utilizadas exclusivamente para esse fim.

Depois, é preciso pensar em como cada escola vai operacionalizar seu espaço maker; ou seja, o que está ao alcance da instituição, tanto financeiramente quanto em termos de capacidade de execução.

Já mencionamos impressoras 3D e kits de robótica como exemplos de tecnologia aplicada à cultura maker. Hoje em dia, esses equipamentos têm custos mais acessíveis do que há dois ou três anos, o que torna muito mais viável para uma escola adquiri-los e utilizá-los em seus espaços maker.

Contudo, o movimento maker não se utiliza somente de ferramentas de alta tecnologia. Máquinas de costura, itens de armarinho, objetos de papelaria, sucata, recicláveis, materiais artísticos e brinquedos em bloco também são possibilidades e tanto para a educação maker. O que conta, afinal, é o processo – e a imaginação.

Para isso, professores e gestores devem estar alinhados quanto às estratégias de aplicação da educação maker no ensino. O que será pedido dos alunos? Quais habilidades se deseja desenvolver em cada faixa etária?

Também não poderíamos deixar de mencionar outro fator a ser considerado: o ensino remoto.

6 → Como definir espaços e interações maker no ensino à distância

Para pensarmos no ensino maker à distância, é válido retomarmos os pilares da cultura maker:

  • Criatividade,
  • Colaboração;
  • Escalabilidade;
  • Sustentabilidade.

Como colocá-los em prática de forma remota?

A educação maker coloca a ênfase no processo, na descoberta. Aqui, já temos uma grande pista de como responder à pergunta. Uma vez que a ênfase está no processo, por que não encorajar os estudantes a seguirem seus interesses e executarem projetos que sejam relevantes para o dia a dia em casa?

Ao incentivar esse exercício, o professor-mediador também pode estabelecer uma dinâmica de colaboração online: cada estudante fala de suas dificuldades ao tentar realizar um projeto específico e os colegas de classe ajudam virtualmente a pensar em formas de resolver esse obstáculo. O professor, nesse contexto, apoia os estudantes a identificarem recursos que podem acessar via ensino remoto

Assim, a turma compartilha sucessos e fracassos e uns incentivam os outros. Ao final, cada aluno pode apresentar seu projeto e seus resultados, exercitando a capacidade de comunicação verbal, e a turma pode refletir e sugerir aspectos de melhoria.

Outro fator a se considerar: já falamos que o modelo de aprendizado por meio dos livros pode ser um tanto engessado, mas nesse contexto da pandemia, eles podem vir a calhar. Fica o desafio para os professores de buscarem livros que promovam uma mentalidade maker: livros interativos, lúdicos e que abordem temas como inovação e perseverança.

7 → 7 exemplos de como aplicar a cultura maker na escola

Já que falamos sobre o surgimento do movimento maker e de sua importância na educação, chegou a hora de dar alguns exemplos práticos de como aplicar a cultura maker na escola.

Dentre as sete sugestões abaixo, as três primeiras são pensadas no contexto do ensino remoto e as demais são projetos que podem ser executados no espaço maker presencial:

  1. Fazer uma horta orgânica vertical em apartamento;
  2. Planejar uma festa de aniversário virtual;
  3. Filmar um vídeo em casa e editá-lo usando smartphone;
  4. Reformar uma peça de roupa, transformando-a em outro item de vestuário;
  5. Usar sucata e materiais recicláveis para construir um edifício, uma casa ou outro projeto de arquitetura;
  6. Imaginar e desenhar um novo animal que une características de animais existentes e imprimi-lo usando uma impressora 3D;
  7. Construir um pequeno robô usando a placa Arduino.

8 → Formações para cultura maker

Para finalizar nosso especial sobre cultura maker, vamos indicar quatro atividades de formação na área: duas pensadas para a capacitação dos professores e duas voltadas para os alunos vivenciarem a cultura maker na prática. Veja a seguir:

Para professores

  • Educador Maker – Primeiros Passos: esse curso online, oferecido pelo Instituto Federal do Espírito Santo – IFES, tem como objetivo introduzir a cultura maker aos professores, apresentar o que é a mentalidade maker e compartilhar práticas maker nos processos educacionais.
  • Educador Maker: ensino “mão na massa”: mais um curso online ofertado pelo IFES, ele pode ser considerado a segundo etapa do curso anterior, já que tem um nível de dificuldade intermediário e visa se aprofundar na educação maker. Dentre os tópicos abordados estão a feira de ciências maker e o ensino de ciências e o educador maker.

Para estudantes

  • WeLab: o WeLab é a solução desenvolvida pela APDZ para aplicar os conhecimentos STEAM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática) nas salas de aula. Os alunos devem resolver um desafio relacionado às STEAM, e para isso, precisam pensar em estratégias, construir protótipos e apresentar seus resultados ao final.
  • TeamLab: o TeamLab é outra inovação da APDZ. O aluno é o protagonista e utilizarecursos como kits de robótica com Arduino, drones e linguagem de programação para resolver os problemas propostos.

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